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Resident Evil — Um survival horror para quem estiver disposto a jogar de coração aberto

há 6 horas
4 min de leitura

Depois de vários longas controversos, tentativas de reboot e uma série que foi um verdadeiro fiasco, a franquia Resident Evil chega com mais uma entrada, dessa vez apostando tudo no olhar autoral do renomado Zach Cregger, conhecido por seu trabalho em A Hora do Mal e Noites Brutais.

Se distanciando de praticamente tudo relacionado à lore dos jogos, a trama acompanha uma noite de trabalho de Bryan, um entregador que recebe a missão de levar o que aparenta ser “um órgão para transplante” até uma instalação no centro de Raccoon City.

E é através dos olhos — e da “câmera no ombro” — do nosso protagonista que embarcamos nessa jornada. Uma jornada que, infelizmente, não traz muitos elementos da lore da franquia Resident Evil, mas que, ao mesmo tempo, consegue transmitir uma forte sensação de gameplay, fazendo Bryan ir “passando por fases”, coletando recursos, enfrentando inimigos e vendo o nível de desafio aumentar até o fim da sua jornada.

Cena do novo filme Resident Evil, dirigido por Zach Cregger e inspirado no universo dos jogos da Capcom.
Cena do novo filme Resident Evil, dirigido por Zach Cregger e inspirado no universo dos jogos da Capcom.

Um Resident Evil sem os personagens de Resident Evil

Desde o anúncio do filme e da notícia de que o longa não traria personagens clássicos dos jogos ou adaptaria a trama de algum título específico, os fãs rapidamente torceram o nariz. E o questionamento era completamente aceitável: se não existem elementos clássicos de Resident Evil, então por que chamar o filme de Resident Evil?

Eu mesmo fui um dos que achou tudo, no mínimo, estranho.

O fato é que, mesmo se distanciando bastante do que normalmente esperamos de um filme “baseado no jogo”, Zach Cregger mais uma vez entrega uma excelente obra de terror. E, ao meu ver, o filme acerta justamente ao estabelecer sua relação com os games não através da história ou de elementos visuais conhecidos, mas pela experiência.

Aqui temos um cara normal como protagonista, vivendo uma situação de horror, urgência e risco, sem experiência com armas ou com situações de sobrevivência. Exatamente como nós quando pegamos um jogo de survival horror para jogar pela primeira vez.

Bryan se atrapalha, erra, xinga e aprende ao longo da sua própria “gameplay”. Ele não é um herói preparado para aquilo. Ele está simplesmente tentando sobreviver.

E existe um ponto que fica extremamente no limite e que, em alguns momentos, quase atrapalha a experiência: a comédia.

Boa parte do humor vem justamente do fato de Bryan ser um cara atrapalhado colocado em uma situação de extremo risco. No início, funciona e chega a ser divertido. No meio do filme, porém, começamos a ficar com raiva dele por fazer tanta cagada.

Mas existe também uma breve reflexão interessante nisso tudo: pessoas normais como nós provavelmente fariam o mesmo — ou até pior — se estivéssemos vivendo aquela situação.

Criatura grotesca do novo filme Resident Evil, que aposta no body horror e em uma abordagem mais lovecraftiana.
Criatura grotesca do novo filme Resident Evil, que aposta no body horror e em uma abordagem mais lovecraftiana.


Body horror, criaturas e uma boa dose de estranheza

Um dos pontos que me fez gostar bastante do longa é a forte influência de clássicos do terror, principalmente na vertente do body horror, que eu particularmente adoro.

Em determinados momentos, o filme apresenta uma vibe muito forte de The Thing, inclusive na trilha sonora. Em outros momentos-chave, também é possível sentir algumas inspirações em Distrito 9 e A Mosca.

E, apesar de não utilizar nenhum dos monstros clássicos da franquia, como Nemesis, Tyrant ou o já bastante conhecido Licker, a produção acerta bastante no design das criaturas.

São conceitos completamente aceitáveis dentro do que esperamos de Resident Evil, mas apresentados através de uma abordagem mais lovecraftiana, que provoca estranheza e, principalmente, medo.

Talvez esse seja um dos grandes méritos do filme: ele não precisa simplesmente colocar na tela uma criatura que o público já conhece para criar uma sensação de Resident Evil. Ele consegue construir seus próprios monstros dentro daquele universo.

Afinal, vale a pena um Resident Evil tão distante dos jogos?

Chegando ao final e voltando àquela questão inicial — valeu a pena fazer um filme de Resident Evil que não tem tanta relação com os jogos?

Agora, depois de assistir ao filme, posso dizer que, em partes, sim.

O fato de não precisar criar amarras com determinados acontecimentos da franquia permitiu que fosse contada uma história isolada acontecendo naquele mesmo universo.

E isso abre uma possibilidade que achei bastante interessante: enquanto Bryan está ali fazendo o corre dele, Chris e Jill podem muito bem estar em outro canto da cidade vivendo os acontecimentos do primeiro jogo.

Essa ideia, inclusive, me deixou com uma vontade enorme de ver como seria uma adaptação do primeiro Resident Evil pelas mãos de Zach Cregger.

Porque se ele conseguiu traduzir tão bem a sensação de estar jogando um survival horror sem simplesmente copiar a história ou os personagens dos games, fica difícil não imaginar o que poderia sair de uma adaptação realmente fiel ao primeiro jogo.

Bryan, protagonista de Resident Evil, enfrenta criaturas e situações de terror durante sua jornada por Raccoon City.
Bryan, protagonista de Resident Evil, enfrenta criaturas e situações de terror durante sua jornada por Raccoon City.


Veredito final: um Resident Evil diferente, mas com alma de survival horror

No mais, para quem gosta daquele terror com muito gore, situações tensas, criaturas grotescas e uma boa dose de body horror, esse filme é um prato cheio.

Mas ficam dois avisos.

O primeiro é que o final pode não agradar à maioria.

O segundo — e talvez mais importante — é para os fãs dos jogos: vão de coração aberto.

Não entrem na sala esperando encontrar tudo aquilo que existe nos games. Não é esse o caminho que o filme escolheu.

Resident Evil pode não ser a adaptação que muitos fãs esperavam, mas encontrou uma maneira curiosa de se relacionar com os jogos: não reproduzindo necessariamente a história, os personagens ou os monstros que já conhecemos, mas tentando reproduzir a sensação de estar dentro de um survival horror.

E, nesse aspecto, acho que Zach Cregger acertou em cheio.

Pôster do filme fazendo referencia a logo da Umbrella Corps
Pôster do filme fazendo referencia a logo da Umbrella Corps

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