A Última Casa: Wagner Moura, claustrofobia e excesso de CGI
- Tiago Moiado

- há 3 horas
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Para Netflix a estratégia é clara: criar uma narrativa pós apocalíptica envolvente, pautada no confinamento, na sobrevivência e no mistério do desconhecido, capaz de atrair novos assinantes e gerar engajamento imediato. É exatamente nessa prateleira que se encaixa A Última Casa, novo suspense dirigido por Louis Leterrier.
Uma premissa instigante desperdiçada
A história acompanha a família Delgado em Seattle. Durante uma tempestade atípica, a água da chuva misteriosamente veda e sela todas as portas e janelas da residência. Sem internet, sem sinal de celular e sem qualquer possibilidade de ajuda externa, a casa — que deveria ser um porto seguro — transforma-se em uma verdadeira prisão. Para piorar, a família percebe que o isolamento não é apenas um fenômeno climático: há criaturas espreitando no exterior.
Para liderar esse drama de sobrevivência, o longa escala um elenco de peso encabeçado por Greta Lee e pelo brasileiro Wagner Moura (O Agente Secreto). No entanto, o talento dos protagonistas é completamente sufocado pela condução do roteiro e da direção.

Direção e problemas com a passagem do tempo
A escolha de Louis Leterrier para a direção soa equivocada desde o início. Conhecido por produções de grande escala e ação frenética — cujo ponto mais próximo de um drama familiar foi o uso recorrente da palavra "família" em Velozes & Furiosos —, o cineasta demonstra estar totalmente deslocado ao tentar equilibrar suspense, dramas interpessoais e terror de confinamento.
O roteiro, assinado por Matthew Robinson (Amor e Monstros), escancara o fascínio do autor pelo cenário pós-apocalíptico, mas falha gravemente no desenvolvimento dos personagens e na gestão do tempo diegético. A passagem do tempo em A Última Casa figura entre as piores representações cinematográficas recentes:
Falta de exaustão física: Não há construção da deterioração mental ou do desgaste dos personagens ao longo dos meses.
Saltos temporais bruscos: A transição dos meses é resolvida com meros letreiros na tela ou narrações expositivas.
Troca de elenco mirim mal executada: Os atores mirins são substituídos para indicar o envelhecimento das crianças sem qualquer fluidez na narrativa.

O confinamento como mero obstáculo mecânico
Em vez de focar na tensão psicológica e no atrito interno da família — a exemplo do que fazem obras como Um Lugar Silencioso, Sinais ou A Vila —, A Última Casa trata o confinamento como um mero obstáculo mecânico.
O personagem de Wagner Moura, Jason, um engenheiro que vira o "MacGyver" com soluções mirabolantes para justificar a sobrevivência do grupo. A lógica do isolamento se afrouxa após os primeiros 30 minutos de filme, dando lugar a uma série de conveniências narrativas conveniente demais: o pai engenheiro, a chaminé rachada, o tecido acrobático... O roteiro parece ter sido escrito de trás para frente, inventando explicações frágeis apenas para viabilizar sequências de ação específicas.
Além disso, a produção precisou recorrer ostensivamente ao ADR (dublagem e regravação de áudio em pós-produção) para tentar corrigir falhas graves de continuidade e dar sentido às cenas.

Um terceiro ato caótico e desnecessário
No ato final, Leterrier abandona qualquer tentativa de criar um thriller contido e abraça um espetáculo de computação gráfica (CGI). A estética do filme passa de planos bem compostos para uma câmera na mão caótica que busca gerar uma sensação de pavor, mas resulta apenas em poluição visual e confusão espacial.
As respostas para os mistérios apresentados durante a trama não são intrigantes, mas sim rasas e arranjadas por conveniência.

Vale a pena assistir a "A Última Casa" na Netflix?
Com uma fraca campanha de divulgação antes do lançamento, a própria Netflix pareceu tratar a produção como um filme qualquer, visando apenas alimentar o algoritmo do catálogo.
A Última Casa desperdiça um excelente elenco e uma premissa promissora ao trocar o terror psicológico por atalhos narrativos e excesso de efeitos visuais sem necessidade.





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