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PRECISAMOS FALAR SOBRE A CULTURA DO ESTUPRO

Marlon Brando e Maria Schneider: o abuso sexual em cena para “captar” a reação da atriz.


Em meados de 2013 o caso de Mary Scheneider e o sofrimento que passou em Um Tango em Paris foi duramente relembrado… Nessa mesa época várias atrizes colocaram a cara a tapa para denunciar algumas figuras poderosas de Hollywood, como Bill Cosby e o mais recente Harvey Weinner.

Harvey Weinstein: produtor de Hollywood foi acusado de assédio por várias mulheres


Em 1972 a atriz Mary Scheneider passou por uma grande humilhação ao ser assediada por seu companheiro de cena. Era a filmagem de Um Tango em Paris, grande produção de Bernardo Bertolucci. O companheiro era nada menos que Marlon Brando, um jovem e famoso ator que, em conluio com o diretor do filme aceitou agredir sexualmente a jovem atriz para que a cena fosse mais real.

O caso foi abafado e, mesmo sob o protesto e acusação de Mary, poucos deram ouvidos ou se manifestaram. Foi apenas muitos anos depois (após a morte da atriz) que os ecos de sua voz abalada ecoaram pela [maravilhosa] Hollywood.

E a Hollywood dos sonhos, palco de estreias apoteóticas e encantadoras começou a ser desnudada, revelando um lado obscuro, triste e desolador para muitas mulheres.

Foi quando a coragem se enalteceu e resolveu passar por cima de todo o medo e terrorismo que estavam na bagagem de muitas atrizes e artistas. Junto a isso houve um apoio externo provocado pelo inconformismo social acerca de atitudes relacionadas aos maus tratos com mulheres.

E então uma enxurrada de denúncias sobre abusos e outros tipos de violência contra mulheres famosas foram reveladas: umas levando outras, como se estivessem de mãos dadas e fossem guiando seus passos. Pouco a pouco mais mulheres revelaram histórias tristes e assustadoras envolvendo magnatas poderosos, assédio e outros tantos escândalos contra Elas.

Algumas atrizes que acusaram Harvey Weinstein por assédio de acordo com a BBC


E a história de Um Tango em Paris se tornou mais uma entre centenas, mas Mary Scheneider virou a mártir que ajudou muitas a se pronunciar: o silêncio que pairou em suas bocas virou um grito único, forte e indestrutível que quebrou barreiras antes inimagináveis e trouxe um vigor de respeito a forma como Hollywood construía a imagem da mulher e a encarava perante os outros.

E foi então que a sociedade começou a entender o que é a Cultura do Estupro e como ela estava inserida dentro dos meios de comunicação e em nossa própria realidade.

CULTURA DO ESTUPRO: Entenda

O termo Cultura do Estupro surgiu na década de 70 pelo movimento feminista americano para explicar um ambiente em que as ações que depreciam, abusam e usam de outros instrumentos violentos contra a mulher são considerados naturais e acabam sendo inseridos nos próprios fatores culturais. Além dessa aceitação, a Cultura do Estupro acaba responsabilizando a mulher por conta de qualquer ato agressivo, insinuando que são seus atos, comportamentos e escolhas que a colocam em posição de vítima.

É importante entender que o termo é bem amplo e está inserido em nossa sociedade há muito tempo. Não se trata só de situações explícitas de abuso, estupro ou agressão, mas de pequenos pensamentos diários que nos levam a crer que a mulher está errada e as consequências por seus atos são naturais e merecidas. É o caso da piada machista, as cantadas na rua, as críticas às roupas curtas… São ações que estão ligadas ao movimento cultural que considera a mulher o vilão de sua própria história.

A vida imita a arte e vice e versa. Dentro desse contexto percebemos que os próprios produtos criados a partir desse universo também estavam manchados de definições estereotipadas da mulher: o “objeto de desejo”, a “vítima sensualizada que precisa ser salva”, a “personagem seminua que é sempre um coadjuvante de tudo o que acontece”.

E nesse ínterim, a Lai, uma das fundadoras do PãoGeekeijo tem algo importante a dizer:

O abuso sexual nas séries de fantasia

Por Laiane

Toda vez que o recurso “estupro” ou “abuso sexual” é usado como meio narrativo para construir a motivação de uma personagem feminina me gera incômodo, pois leva a crer que esse é o único caminho legítimo que a personagem pode percorrer para se tornar forte.

Nas séries de fantasia isso é levado a um outro patamar, além do falso paralelo de construção para personagens masculinos e das cenas cruéis, não há uma mensagem a ser passada. Sansa, em Game of Thones, é vítima de estupro por Ramsay mas isso não contribuiu nem para reforçar a crueldade do personagem (que já estava evidente em todas as cenas em que ele foi apresentado, essa crueldade já havia sido sedimentada) nem para contribuir com a evolução de Sansa, que já estava indo bem em seu arco a partir do momento que precisou “se virar” sem a ajuda da família.

Sansa em Game of Thrones. Nas primeiras mesas de D&D que joguei, ainda adolescente, era a única menina no grupo. Isso fazia com que constantemente minha personagem fosse usada para ser sequestrada, assediada e, na minha última sessão nesta mesa, ter as roupas arrancadas de forma violenta para sensibilizar o resto do grupo a ter uma ação. Qual o sentido real disso? Fortalecer minha personagem? É realmente possível defender isso? Penso que não.

Personagens femininas não precisam passar por traumas sexuais para serem fortes, para serem poderosas, tal qual já acontece com personagens masculinos. Empobrece o roteiro de qualquer produção quando esse passa a ser o único recurso usado e acaba causando um efeito ainda mais estarrecedor, o que normalizar essa narrativa e, com isso, influenciar que ela seja constantemente replicada. Como disse Débora Liao no Garotas Geeks, “precisão histórica não é desculpa”, até porque essas séries são ficcionais. Ninguém se importa que uma personagem mulher, na época medieval, tenha todos os dentes brancos, cabelos brilhantes, corpo torneado, pele lisa e pelos depilados. Não se exige precisão histórica aí, então qual a justificativa para o preciosismo quando o tema é abuso sexual/ estupro?

Essa pergunta precisa ser enfrentada com maior seriedade e não apenas pelas mulheres que eventualmente tenham sido vítimas de alguma violência nesse sentido, mas de todas as demais pessoas que entendem a dimensão dessa crítica e conseguem sentir o mínimo de empatia.

Importante!

Falar sobre a Cultura do Estupro – por mais difícil e dolorosa que seja – é desmitificar um tabu e trazê-lo à tona. É preciso conversar sobre o assunto, entender a fundo todo o seu contexto e como tirá-lo da raiz de nossa sociedade. Não é uma tarefa fácil ou rápida, é algo demorado, complexo, e que exige união e empatia. Precisamos de braços, corações, almas e cérebro para essa luta. Precisamos de mãos unidas e cara lavada. Precisamos nos proteger.

Falamos mais sobre o assunto no Podcast dessa semana. Vou deixar o link aqui para conferir o nosso bate papo:

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