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BuenosAires: O sotaque pernambucano da Argentina

Em "BuenosAires" (2026), a cineasta pernambucana Tuca Siqueira nos convida a uma viagem inesperada. Esqueça a metrópole portenha: o cenário deste longa documental de 70 minutos é a pequena cidade de Buenos Aires, cravada na Zona da Mata de Pernambuco. Com um olhar sensível e poético, o filme desvenda a curiosa e profunda conexão afetiva que os habitantes deste reduto nordestino nutrem pela cultura e pelo país vizinho, a Argentina. Sabe aquela capacidade bem brasileira de abraçar o inusitado e transformar isso em identidade? É exatamente essa a alma de "BuenosAires". O documentário nos leva ao interior de Pernambuco, a uma cidade homônima à capital argentina, onde o acaso geográfico virou paixão cultural. A obra já abre o coração logo no início: em uma aula de espanhol, um aluno declara seu amor pela beleza de sua cidade. É o passaporte perfeito para conhecermos esse lugar único.

O que o documentário tem de melhor

O grande mérito do documentário está em sua autenticidade e na proximidade com o espectador. Diferente de produções com um olhar mais distante, aqui quem conduz a narrativa são os próprios moradores. Figuras como escultores, comerciantes e o curioso técnico do "Boca Juniors" local guiam o filme através de suas memórias, misturando o orgulho regional ao fascínio portenho.

Essa força do coletivo salta aos olhos na forma como a cidade abraça sua mistura cultural com total naturalidade. É algo que se nota nas ruas pintadas, no idioma que flutua entre o português e o espanhol, e na intensa vibração da Copa do Mundo — afinal, o longa foi filmado em 2022 e lançado agora, aproveitando o clima do Mundial de 2026. A diretora Tuca Siqueira também brilha ao capturar a verdadeira alma do local por meio de cenas espontâneas. A inesquecível sequência de torcedores comemorando um gol e erguendo cadeiras de plástico em um barzinho de beira de estrada é um ótimo exemplo disso. Para coroar, a montagem muito inteligente cria um contraste visual incrível ao alternar os jogos amadores do município com imagens de estádios lotados na Argentina, unindo perfeitamente o universo interiorano ao grandioso.


Onde a Produção Escorrega

Apesar de seus acertos, o filme escorrega ao colocar o futebol em excesso na balança. Embora o esporte seja, sem dúvida, o coração pulsante dessa identidade local, ele acaba dominando quase todo o tempo de tela. Como consequência, temas muito ricos que o próprio documentário chega a sugerir — como a religiosidade, os amores, os sonhos abandonados e os desafios sociais da comunidade — ficam apenas na superfície e deixam o espectador querendo saber mais.

Outro ponto que enfraquece a obra é uma repetição cansativa ao longo dos seus 70 minutos. A direção peca pelo excesso ao focar repetidamente em placas e símbolos visuais apenas para nos lembrar constantemente o nome da cidade e deixando de lado a explicação do porque o nome era Jacu até 1928 e depois rebatizada para Buenos Aires . Além desse reforço visual redundante, a narração muitas vezes "chove no molhado", mastigando e repetindo informações que os entrevistados já haviam acabado de contar de forma muito mais autêntica.


Com seus enxutos 70 minutos, "BuenosAires" é um documentário super simpático, humano e cheio de boas intenções. Ele desperta nossa curiosidade de fazer as malas e ir conhecer essa mistura cultural de perto. Embora deixe aquele gostinho de que poderia ter explorado muito mais do que apenas o universo da bola, a obra triunfa como uma homenagem linda a uma comunidade que encontrou, num nome gringo improvável, a sua forma maravilhosa de ser nordestina.



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