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Os filmes do Zé do Caixão que todo fã de terror precisa ver

José Mojica Marins, ou simplesmente Zé do Caixão, faleceu no dia 19 de fevereiro de 2020, por consequência de uma broncopneumonia.


Quem diabos é Zé do Caixão?

Zé nasceu em uma sexta-feira 13 e foi a partir de um pesadelo que encontrou o personagem que mudaria sua vida e transformaria para sempre o cinema brasileiro de terror.

Eu era pequena quando vi pela primeira vez o Zé do Caixão. Foi numa longínqua década de noventa, quando a censura não tinha ainda apertado os passos da TV brasileira e você podia ver tranquilamente o programa Cine Trash diariamente na band, no horário da tarde. Me lembro que sentava de frente a televisão com os olhos bem fixos, prontos para ver aquele homem estranho, com roupa preta e voz arrastada apresentando um programa sobre filmes de terror… E pronto. Foi graças àquele programa maluco, apresentado por um estranho de longas unhas que me apaixonei pelo cinema de horror.


Naquela época eu não sabia que Zé do Caixão, ou melhor, que José Mojica Marins já tinha passado por muitas dificuldades para se estabelecer no cenário brasileiro e mundial de terror. Sim, enquanto eu assistia ao Cine Trash, ele já era conhecido e reverenciado no exterior como um dos grandes expoentes do cinema de gênero e até tinha sido carinhosamente apelidado nos Estados Unidos de Coffin Joe.


Mas antes de toda a fama Zé precisou lutar muito para se estabelecer num cenário pouco explorado ou valorizado no Brasil. Suas primeiras produções eram caseiras e feitas com a criatividade de um verdadeiro amante da arte; não havia orçamento, estúdio ou estrutura. Os atores eram amadores e pagavam para participar através de cotas, ajudando assim a financiar as produções, e foi desta forma que em 1958 Mojica realizou seu primeiro longa, o Sina do Aventureiro.


E então algo mudou completamente sua vida e carreira.

O PESADELO DE ZÉ DO CAIXÃO

Nos anos 60, Mojica teve um pesadelo: sonhou que um homem de capa e chapéu pretos o arrastava da cama e o levava a um cemitério. Lá, o estranho homem lhe mostrou um túmulo em que havia a data do nascimento e da morte de Mojica.

Para personificar a estranha criatura de seu pesadelo, Mojica agora era Zé do Caixão, o personagem de seu primeiro filme de terror que se tornaria imortal aos olhos dos fãs de cinema de gênero. É então que sua trajetória como o homem estranho de roupas pretas e unhas grandes ganha vida, filme, uma história apavorante e um legado fantástico.

Deixo agora a indicação da trilogia dos filmes sobre o personagem do pesadelo de Mojica, que teve sua trajetória sinistra imortalizada pela a indústria cinematográfica. Trilogia esta obrigatória para qualquer amante de filmes de horror (fica a dica).

À MEIA NOITE LEVAREI SUA ALMA (1964)


Em sua primeira aparição, Zé do Caixão é um coveiro sinistro que vive em uma cidadezinha de interior. Ele é cruel, estranho não acredita em Deus ou em qualquer tipo de vida após a morte, por isso quer desesperadamente ter um filho para que sua linhagem continue na terra, já que para ele a única eternidade é a do sangue em vida. Para isso não mede esforços ou tem qualquer escrúpulo: mata a esposa por ela não conseguir lhe dar um herdeiro e também seu melhor amigo, para que possa então desposar sua noiva. Zé trata a todos com requintes de crueldade e desrespeito, chamando-os de ignorantes do mato e passando por cima de todos para realizar o seu intento.


À Meia Noite levarei sua alma é um filme de gênero produzido num Brasil que vivia o início da Ditadura Militar. Ele é subversivo, sanguinário e não teme as censuras. Se tornou um clássico  por refletir a mente criativa e aberta de José Mojica Marins, que viu em um pesadelo a possibilidade de criar uma personagem tão assustadora e cativante ao mesmo tempo.

Você encontra a obra completa no Youtube (com legendas em inglês!), apresentado pelo próprio Zé do Caixão, no saudoso Cine Trash.

ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER (1967)


A continuação de À meia noite levarei sua alma, revela mais sobre a natureza nefasta de Zé do Caixão, e neste longa descobrimos seu real nome: Josefel Zanatas.


Zé do Caixão, ainda continua sua busca desenfreada pelo filho perfeito, e, desta vez, sequestra sete jovens para que assim possa “selecionar” a futura mãe de seu filho. A segunda obra se aprofunda na mente do personagem e mostra todo seu lado menos humano e sanguinário.

Esta noite encarnarei no teu cadáver também está disponível de forma completa no Youtube.

A ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO (2008)


O fim da trilogia que começa na década de 60 é encerrada cerca de quarenta anos depois, após Mojica acumular quase 2 milhões de reais para a produção do filme. O dinheiro de uma vida é usado para finalizar a trilogia sombria de Zé do Caixão e colocar o longa no patamar dos filmes torture porn (um termo utilizado para designar produções com extrema violência gráfica, sexo e/ou nudez). A história se inicia a partir da libertação de Josefel da prisão, onde esteve para pagar os crimes e assassinatos que fez em sua juventude. Mas estará ele realmente curado de todo o mal?


Zé é sádico, insano e tem prazer pela maldade. É o ser que ignora as estruturas de uma sociedade cristã ainda marcada por dogmas e rituais. Ele abomina tais atos e zomba de todos eles, e em troca exibe um contexto crítico do mundo real em que vivemos, onde religião e a banalização das violências sociais estão sempre num mesmo cenário caótico. É a personagem perfeita para representar o mundo obscuro e sanguinário do horror, expondo uma personalidade cruel e inescrupulosa.

JOSÉ MOJICA MARINS: PARA SEMPRE ZÉ DO CAIXÃO

José Mojica Marins deu cor e luz a um gênero que sempre foi ignorado em nosso país: conseguiu transformá-lo em um legado inspirador, que serviu de pano para outras produções e outros diretores entrarem em cena e o usarem como modelo…um ser sombrio incrível, que saiu das profundezas de sua própria mente para ganhar o mundo. Se tornou símbolo de sucesso no exterior (e, infelizmente, foi mais valorizado lá do que aqui), chegou a ser comparado a grandes artistas do cinema de gênero, como Bela Lugosi.

Tim Burton que o encontrou em São Paulo, no ano de 2015, disse, animado, que ele fez parte “de seus pesadelos. Mas sempre foi um pesadelo feliz”. Ele confessou que assistia as obras de Mojica quando iniciava a carreira e que se inspirou no diretor para criar sua trajetória autêntica em Hollywood. Além de Tim, Mojica inspirou tantos outros amantes do cinema, tanto nacionais quanto no exterior, sendo um grande representante e expoente do cinema de horror brasileiro, um gênero tão marginalizado em nosso país.


Encontro de Tim Burton e Zé do Caixão no MIS, durante a exposição “O Mundo de Tim Burton”

A garotinha que amava assistir àquele homem maluco, que apresentava filmes de terror com requintes maliciosos e sinistros cresceu continuando a amar cinema de horror. Já na faculdade, encontrou o exemplar dos três filmes para alugar, na própria biblioteca de onde estudava, e com muito carinho se lembrou daquela figura incrível, o ser maligno, o paladino das noites sangrentas…que se tornou um grande ícone do cenário brasileiro e mundial de fantasia.


Obrigada, Zé. Descanse em paz.

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