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O Gambito da Rainha: uma história sobre o universo do xadrez

Quem diria que uma série cujo tema principal é o jogo de xadrez não seria entediante? E digo isso não porque o jogo de xadrez é tedioso mas sim porque é uma série que fala sobre xadrez a partir da vida da protagonista, Elisabeth Harmon.

O Gambito da Rainha é uma série da Netflix que tem feito sucesso e despertado o interesse de muitas pessoas pelo jogo.  Protagonizada por Anya Taylor-Joy, a série é inspirada no romance homônimo de Walter Tevis e mesmo sendo ficcional, muita coisa trazida na série (como nome de jogadores, técnicas, etc.) são reais, principalmente porque teve gente realmente especializada em xadrez para fornecer conselhos sobre o jogo, como o melhor jogador de todos os tempos, Garry Kasparov.

Aliás, não precisa saber jogar xadrez para ver/entender/gostar da série: eu mesma não entendo nada desse jogo e achei excelente! Não terminei a série com vontade de jogar xadrez mas passei a admirar ainda mais esse universo dos enxadristas. Mas claro que SABER xadrez vai tornar a experiência da série ainda mais legal, podendo entender a lógica no nome dos episódios, as estratégias, o hábito de estudar os movimentos de enxadristas profissionais e testar variações, etc.

Beth nos guia a uma triste realidade do universo profissional do xadrez: é um lugar dominado por homens e as poucas mulheres que se aventuram são cercadas de inúmeros preconceitos pautados não na sua condição de jogadora. Beth é julgada por seu hábito em beber (que depois evolui para um alcoolismo), é julgada quando não se apresenta com uma aparência impecável, é julgada por ser bonita demais. E essa não é apenas a opinião da série: as mais famosas enxadristas no mundo falam sobre isso, como Judit Polgar (que se tornou grande mestre aos 15 anos e  sua história lembra muito aquela contada na série, principalmente porque ela derrotou o melhor enxadrista do mundo) e Hou Yifan (se tornou grande mestre aos 14 anos), atual número um no xadrez “feminino” mundial que desbancou a posição de Polgar.

Talvez a Neftlix devesse ter convidado uma delas para colaborar na série não apenas como profissional no xadrez mas acima de tudo, com o olhar da mulher sob esse universo (e talvez aí esteja uma mensagem que a série acaba reforçando, mesmo sem essa intenção). Polgar mesmo, numa entrevista pra falar sobre a série, disse que os outros enxadristas “foram legais demais” com Beth, porque na “vida real” ela suportou muitas piadas misóginas e depreciativos ao longo da carreira, reforçando a bola fora da Netflix em não contratar Polgar para trazer seu olhar para a série, ainda que ela tendo derrotado Kasparov quando ele era o melhor do mundo. Não podemos esquecer de Nona Gaprindashvili, hoje com 80 anos, que foi a primeira mulher Grande Mestre do mundo e enfrentou vários jogadores profissionais há mais de 60 anos. Mesmo assim a série cria, de certa forma, um encorajamento para que mulheres participem cada vez mais desse universo.

Isso leva a outras questões mais profundas: o xadrez precisa mesmo de categorias separadas? Porque Polgar foi considerada a melhor “mulher” enxadrista do mundo e não a melhor do mundo, quando derrotou Kasparov? O mesmo não vale para Yifan? Elas são autoras de livros sobre xadrez e tem a mesma projeção que outros grandes mestres?

Bem, deixando essas questões de lado, é uma série muito bem feita, bem construída e narrada e com uma fotografia muito bacana. Vale muito a pena assistir!

Ah, uma curiosidade: vocês sabiam que uma família “brasileira” participou das gravações? Erik (alemão que morou no Brasil quase a vida toda), jogador de xadrez, gravou cenas na Alemanha, nos Estados Unidos, na Rússia e no Canadá. A sua filha, Luisa, nascida no Brasil, gravou algumas cenas no orfanato junto com outras figurantes. A família vive na Alemanha definitivamente em 2017 e lá estavam cadastrados em agências de atores. As fotos dos dois estão nessa entrevista aqui da NSCTotal.

Assista e nos conte o que achou!

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