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Inventando Anna: uma fraca romantização do estelionato

Em fevereiro estreou na Netflix a série Inventando Anna, drama dirigido por Shonda Rimes com oito episódios conta com a participação de Laverne Cox, Julia Garner e Anna Clumsky. Seguindo a linha de romantização de “criminosos”, Netflix apostou novamente na fórmula certeira com seu público e lançou a série inspirada em fatos reais, da vida de Anna Sorokina, a falsa socialite que enganou a elite de Nova York. Caso queira saber mais sobre a história que inspirou a série, sugiro clicar aqui e aqui.


Anna Delvey é uma personagem superficial e arrogante. São poucos indícios que levam o espectador a se cativar por ela. E não digo superficialidade literal da pessoa Anna Delvey, mas da própria personagem que dificulta para o público defendê-la ou odiá-la. Ela fala coisas apenas para agradar as pessoas em seu redor? Ela é sincera em alguns momentos? Ela grita o tempo todo para desviar a atenção de algo? Não dá para saber. E ok, é uma história contada sob a perspectiva da jornalista mas nem ela trata Anna na forma como diz tratá-la.

O pior é que a história se arrasta por longos episódios, cada um com a proposta de trabalhar a perspectiva de um personagem que teve contato com Anna. Ocorre que apenas um dos episódios há claramente uma mudança de abordagem pela perspectiva de personagem (Rachel) enquanto em relação ao restante isso não faz diferença. Ou seja, a história contada sob a perspectiva do personagem e a que de fato aconteceu, de forma totalmente imparcial, mas apenas a de Rachel é parcial. Isso prejudica, a meu ver, quando a proposta da série parece ser a Ana que cada um inventou para si.

Outro ponto que me incomodou MUITO é que, como uma jornalista investigativa vai percorrer a história de Anna Delvey e não vai procurar nada sobre a origem desse alter ego? Soa absurdo que a instigante história de Anna cause curiosidade na co-protagonista Vívian ao passo que a jornalista deixa passar um detalhe tão importante: afinal, tudo começou quando Ana surgiu alegando ser uma riquíssima herdeira alemã. Herdeira de quem? Em tempos de Google deixar essa passar batido soa amador.

Inclusive a investigação sobre a origem de Anna é uma preocupação trazida só no penúltimo episódio, o que fez pouco sentido para mim. Além das lacunas na história da infância, adolescência e da saída de casa da personagem, o contato com os pais não leva a história a lugar nenhum e nos empurra apenas para a conclusão que “nem sempre monstros são criados por monstros”.

Inventando Anna está longe de ser uma série divertida. É uma história que se prolonga demasiadamente em arcos desinteressantes e fica cansativa logo nos primeiros episódios.

Afinal, mostra Anna como uma pessoa que tem muito a oferecer a quem a rodeia, mas na série, ela não oferece absolutamente nada aos enganados. Sequer fica claro que ela oferece status a quem anda com ela. Então, afinal, o que justifica esses personagens a usarem Anna em benefício próprio? Em muitos momentos, a série falha em explicar.

Minha impressão é que tentaram passar a mensagem de que todos tem suas próprias ambições e estão usando Anna para isso. Mas voltando ao que disse no início, Anna não oferece, de plano, nada aquilo que as pessoas pretendem buscar. O advogado, que atua sabendo que não vai receber, se apoia no caso para crescer na carreira mas é quase que um “salto para a morte” já que ele fala pouco com a cliente, foge das suas ligações e só no final está preocupado em atenuar a pena. Há um vazio aqui para justificar a obsessão do advogado com o caso, que só aumenta quando a jornalista Vivian começa a ajudá-lo na investigação.

Tanto o advogado como a jornalista defendem, em alguns momentos, que o mais importante na história de Anna é como ela conseguiu se aproveitar das fragilidades da alta sociedade para mostrar a ganância da elite nova-iorquina. Se essa era para ser a mensagem principal da série, ela é pouco trabalhada e pra mim acaba sendo também um ponto negativo.

Além disso existem várias outras lacunas que quebram a expectativa criada pela série. O julgamento, a parte mais importante de tudo, dá ênfase apenas em uma personagem que serve como testemunha e desenvolve pouco outros pontos igualmente fortes que irão fundamentar a condenação da Anna. O que era para ser o ápice da série foi trazido de forma rasa.

Minha crítica aqui está longe de se pautar pelo conservadorismo. A meu ver a série é mesmo fraca na história que conta. Pouco se mostra sobre a invenção de Anna pela própria Anna e os personagens em torno dela apenas decidiram acreditar naquela Anna diante deles. Daria para contar tudo com metade dos episódios e uma narrativa mais envolvente.

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