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Crítica – The Post: A Guerra Secreta

O filme de Steven Spilberg narra a história do vazamento do “Pentagon Papers”, conjunto de documentos oficiais e secretos, que detalhava as ações, interferências, manipulações e influência dos Estados Unidos no Vietnã entre as décadas de 1940 e 1960. Elaborado pelo Pentágono continha 14 mil páginas e sua divulgação mudou o rumo da Guerra do Vietnã em 1971 ao detalhar como os presidentes Truman, Eisenhower, Kennedy e Johnson mentiram para o congresso e para o povo sobre a real situação em campo e enviaram as tropas mesmo sabendo da derrota iminente.

Acompanhamos a investigação do caso pelos jornalistas do “The Washington Post” desde a descoberta do documento, o levantamento dos dados e sua compilação até a sua controversa publicação.

Descobrimos simultaneamente à divulgação dos documentos, os eventos ocorridos com Kat Graham (Merryl Streep) que herdou o “The Washington Post” que pertencera a seu pai e posteriormente ao seu marido. Depois de uma difícil história pessoal e familiar Kat forçosamente assumiu o comando do jornal, tornando-se a primeira mulher nesta posição, ela precisou lidar com um grupo de Conselheiros, predominantemente masculino, que não entendiam sua função na empresa e contestavam incessantemente suas sugestões e decisões. Conhecemos também Ben Bradlee (Tom Hanks), o tenaz editor chefe do jornal, que usa seu conhecimento e tino profissional para tentar levantar o “Post”, considerando que o New York Times dominava o mercado jornalístico naquele momento e promovia uma concorrência discrepante com os adversários.

O New York Times teve acesso prioritário à parte dos documentos e iniciou uma série de matérias com trechos dos mesmos. (série intitulada Pentagon Papers) A divulgação causou a ira do então Presidente Richard Nixon que se embasou na Lei da Espionagem para processar o veículo ocasionando a proibição da publicação dos documentos. Esta foi a oportunidade para que a equipe do “The Post” intensificasse sua investigação em busca do bombástico dossiê cujo descobrimento ocorreu graças ao  repórter investigativo Ben Bagdikian (Bob Odenkirk) que trabalhou incessantemente no caso.

A partir daí, estabelece-se o conflito entre publicar ou não a história. Bradlee reúne alguns membros da equipe, estudam o documento, esboçam o artigo e discutem com Kat sobre a importância da publicação como uma maneira de resistir à pressão inquisitória do governo Nixon para silenciar a imprensa como também para garantir a liberdade de expressão defendida na primeira emenda da Constituição dos Estados Unidos.

É interessante notar que a jornada de crescimento e emancipação de Kat e do jornal se misturam, pois, acontecem simultaneamente. Ela que era vista como incapaz de fazer escolhas difíceis tem em suas mãos uma decisão que afetaria não só sua empresa e vida pessoal, como também a credibilidade do governo americano, o que refletiria em toda a nação. O SIM de Kat respaldou toda a sua equipe e representou um marco histórico importante não só para o “The Post” como para toda a imprensa americana, atrelado ao julgamento da Suprema Corte, que decidiu a favor da livre publicação do conteúdo do dossiê, resultaram no primeiro golpe ao governo Nixon, que mais tarde, não resistiria ao Caso Watergate. Tais eventos corroboram a máxima dita por Bradlee no filme que “as notícias são o rascunho da história”.

A Guerra Secreta de Spilberg conta com roteiro de Josh Singer e Elizabeth Hannah, um elenco de apoio primoroso: Matthew Rhys (the Americans), Sara Paulson (vencedora do emmy), Bob Odenkirk (Breaking Bad), David Cross (unbreakable Kimmy Schmidt) , Bruce Greenwood (Star Trek), Alison Brie (Mad Men) e  as atuações  impecáveis de  Tom Hanks e Merryl Streep que se opõem ao ritmo mais lento da primeira parte do filme e nos levam a imergir no ambiente jornalístico trazendo um dinamismo necessário ao representarem o auge do jornalismo impresso nos EUA. Como estes dois nunca contracenaram antes? A química entre eles é maravilhosa! Os diálogos fluem e nos impactam, acreditamos, torcemos e nos emocionamos com eles.

Por fim, destaco a atualidade da temática trazida pelo filme que é muito bem sustentada pelas declarações feitas por Spilberg nos eventos de divulgação.  Em apenas nove meses ele conseguiu um resultado de qualidade, imagina se tivesse mais tempo? Ele ressalta ainda que a rapidez das filmagens é justificada pela oportunidade de fazer frente às chamadas “fake news” destacadas pelo então Presidente Donald Trump. O governante trava batalhas diárias com a imprensa americana da “bancada liberal” e acaba agindo de forma análoga ao seu antecessor retratado no filme.  Portanto, a película é notoriamente um protesto à atual conjuntura política dos EUA e certamente terá destaques em várias premiações este ano. Ela já recebeu seis indicações ao Globo de Ouro 2018, incluindo o de melhor filme dramático e melhor atriz de drama. Ganhou os prêmios de melhor filme, melhor ator (Tom Hanks) e melhor atriz (Merryl Streep) no National Board of Review 2018 (NBR). E está na disputa do Oscar 2018 concorrendo a Melhor Filme e Melhor Atriz (esta é a  21ª indicação ao Oscar de Merryl).          

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