top of page

Crítica | Tetris

Estreou na AppleTv+ o filme Tetris, cuja proposta era contar a história por trás do aclamado jogo de blocos dos anos 80. Tem direção de Jon S. Baird e participação de Taron Egergon (como Henk Rogers), Nikita Efremov (como Alexey Pajitnov), Toby Jones como Robert Stein, Ben Miles (como Howard Lincoln), dentre outros.


A história do filme Tetris

Reside aqui um dos meus maiores problemas com esse filme. Ele não conta a história do Tetris (pelo qual dedica pouco menos de dez minutos, se somar todas as cenas), mas são quase duas horas focadas em mostrar, de forma muito simplória e fantasiosa, os entraves jurídicos por trás do licenciamento do jogo para o ocidente. E acredite quando eu digo que não tem nada de divertido em mostrar os anos de discussão sobre cláusulas contratuais desse caso na vida real.

Ainda assim, esse é um filme que equilibra bem a ambição de Henk Rogers, seu bom olho para as novidades do mercado e sua coragem em buscar o caminho “correto” para conseguir aquilo que tanto quer.  Afinal, conseguimos sentir o fascínio no olhar dele quando ele vê, pela primeira vez, o Tetris em “ação”. 

Porém, o filme começa aí, quando Tetris já estava no ocidente sendo exibido em uma feira de investimentos. “Começa” do meio para desenvolver dali em diante, indo muito pouco no passado para exaltar a genialidade do Pajitnov.

Tetris' review: This video game-inspired adventure is a winner | Mashable

Apesar da caricatura da União Soviética, e de vários outros personagens caricatos, o filme mostra as sutilezas da URSS que estava com seus problemas internos, as barreiras culturais sendo ultrapassadas e como o fascínio por Tetris foi capaz de unir diferentes mundos.

Dentro do que foi construído da União Soviética, mostra a corrupção como algo inerente a qualquer governo, o uso arbitrário da KGB e reforça que mesmo com tantos problemas, ali dentro tem pessoas que acreditam no Estado e lutam para assegurar o melhor interesse para todos, indo além de motivos egoísticos. 

Daí, a mensagem que fica é que, quando pessoas que acreditam em uma causa maior e lutam por isso, conseguem alcançar o que desejam. Claro, com um herói ocidental salvando o “mundo”. Acaba sendo uma mensagem confortante, apesar de tudo. 

A “real” história do Tetris

A forma com que Tetris foi criado e as razões para ser portado é uma história fascinante por si só. Alexey Pajitnov era um cientista, residente em Moscou, que criou a primeira versão de Tetris em um Electronika 60 em 1984. 

O nome é realmente aquilo mostrado no filme: o jogo, que permite aos jogadores rotacionar, de forma estratégica, blocos em queda, foi batizado de Tetris diante da combinação da palavra grega tetra (que se refere a quatro quadrados em cada bloco) com a palavra tênis (do esporte).

Em 1985 Tetris foi portado para um computador IBM e em 1986, ultrapassou as barreiras da URSS e se tornou o primeiro jogo russo a ser lançado no ocidente. O lançamento oficial para PC na América do Norte e Europa ocorreu apenas em 1987, marcando assim a primeira expansão global oficial do jogo. Somente em 1988 Henk Rogers descobriu Tetris numa feira em Las Vegas, se viciando no jogo. Rogers correu atrás de lançar Tetris para PC e Nintendo Famicon, se tornando o primeiro jogo “blockbuster” da história. 

O jogo já havia indo além da URSS e alcançado o maior mercado de entretenimento do mundo. Claro que isso rende uma boa história a ser contada, embora o filme tenha ignorado para focar em Henk Rogers.

Quem é a verdadeira estrela do Tetris?

O encontro de Rogers com Pajitnov ocorreu apenas em 1989, e reza a lenda que se tornaram instantaneamente amigos.  Também neste ano Rogers conseguiu os direitos sobre o jogo, e o licenciou para a Nintendo, que o colocou no Game Boy. 

Mesmo com todo esse sucesso, e os milhões faturados por Rogers, é triste saber que Pajitnov não recebeu um tostão. Há uma justificativa trazida pelo próprio filme, embora mal explicada: isso não foi por conta da política da URSS unicamente.

Alexey Pajitnov era desenvolver e programador, se tornando um acadêmico pesquisador do Centro de Computação da Academia Soviética de Ciências que trabalhava pesquisando padrões de reconhecimento de fala. Quando o instituto adquiria novos computadores, Pajitnov costumava testar os limites do hardware criando jogos para forçar o desempenho das máquinas. Foi assim que, em junho de 1984, Tetris foi criado.

Como ocorre até hoje com centros de pesquisa, tudo o que é criado pertence aos inventores e aos institutos e/ou agências fomentadoras. No caso de Pajitnovele renunciou aos direitos de Tetris em 1986, “cedendo-os” inteiramente ao instituto de pesquisa por dez anos. Como ele mesmo relata, não tinha muita escolha e preferiu abandonar os direitos de inventor do jogo para o instituto de pesquisa que ele fazia parte. Esses direitos foram recuperados em 1995/1996, depois do fim da Guerra Fria. 

O cientista foi procurado por Stein para fazer um acordo de licenciamento, pelo qual tinha muito interesse, mas Stein acabou presumindo que uma parceria tácita foi firmada. Com isso, Stein agiu como titular dos direitos de Tetris fora da URSS.

O episódio de The Big Bang Theory ilustra isso bem, quando na 10a temporada, Leonard e Hollowitz inventam um objeto patenteável com grande potencial de mercado e desistem de seguir adiante quando descobrem que boa parte dos lucros irão ficar com a universidade que fomentou a pesquisa. 

Tetris: vale a pena?

Apesar das ressalvas sobre a forma com que a história foi contada, deixando o “recheio do bolo” de lado, e de pessoas que conheço estarem considerando o filme quase como um documentário (!), Tetris é um filme divertido, que vai te entreter pelo tempo necessário. Cenas fantasiosas comprometem um pouco a suspensão de descrença, principalmente em relação à caricata KGB e a perseguição de carros digna de um filme de 007, mas é um filme agradável com uma mensagem heroica no final.

Uma curiosidade é que RogersPajitnov tiveram acesso ao roteiro e admitiram que a história foi completamente embelezada e muita coisa ali nunca aconteceu, o que é de se esperar de uma produção de Hollywood. Porém, para os dois, os cineastas sabiam da real história e fizeram o melhor para contá-la da forma que contaram. Citando o próprio Pajitnov: “boas ideias não têm fronteiras“.

Nota: 7/10

Ficha Técnica:

Direção: Jon S. Baird

Roteirista: Noah Pink

Onde assistir: AppleTV+

Data de lançamento: 31 de março de 2023

(As fontes estão linkadas no texto)

0 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page