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Belle, de Mamoru Hosoda: bela modernização de um clássico

Mamoru Hosoda chegou ao seu décimo segundo filme com uma grande recepção: sucesso no festival de Cannes, indicação ao Oscar, e terceiro filme com maior bilheteria de um filme japonês em 2021, atrás apenas de Evangelion 3.0+1.0: Thrice Upon a Time e Detective Conan: The Scarlet Bullet. Mesmo assim, o diretor é meio desconhecido pelas bandas de cá. Uma pena. Ele não fica atrás do Makoto Shinkai ou do Masaaki Yuasa tanto em qualidade quando em quantidade.

Belle” é uma releitura de A Bela e a Fera, cuja história original foi publicada por Jeanne-Marie Leprince de Beaumont em 1756. É uma história muito conhecida, pelo menos por nós do ocidente, por causa da animação da Disney de 1991. E Hosoda deixa claro que é fã assumido do filme e do estúdio: chegou até a contratar Jim Kim, animador veterano da Coréia do Sul que trabalhou na Disney, para ajuda-lo com Belle. Além disso, o diretor é muito fã de La Belle et la Bête, mágico filme francês de 1946 do Jean Cocteau.

Mas o fato de ser fã não significa que Belle é um tributo ou cópia, algo como o filme “meia molhada” de 2017 da Disney que protagonizado por Emma Watson, que retira alguns elementos problemáticos da história e não adiciona mais de novo, gerando uma versão redundante e sem carisma. Momoda muda o que quer a seu bel-prazer e as diferenças são substanciais, em alguns casos indo numa direção contrária à história original. A fantasia vira ficção-científica, o aprisionamento vira invasão, e por aí vai, e ainda assim tudo se encaixa. Os contrastes são fortes, mas A Bela e a Fera é, desde o título, uma história sobre contrastes.

Imagem conceitual de Belle feita por Jim Kim. O estilo Disney é inegável.

O filme começa com uma narração em segunda pessoa fazendo uma propaganda de um mundo virtual chamado U, que é acessado através de um aparelho parecido com um fone de ouvido wireless. O aparelho faz uma leitura biológica das pessoas e as transforma em uma versão melhorada e mais íntimas de quem elas gostariam de ser. O filme, então, corta para Suzu, uma garota que mora em uma cidade mais rural no Japão. A jovem tem um relacionamento distante com seu pai, que tenta se aproximar dela mas é constantemente afastado. Descobrimos que isso é fruto de uma experiência traumática: a mãe de Suzu, uma artista, morreu ao tentar resgatar uma criança de um rio. Outro trauma decorrente disso é que Suzu não consegue mais cantar. O bloqueio é forte a ponto de uma tentativa lhe causar vômito.

Um dia, com a ajuda de uma amiga nerd, Suzu cria um avatar e entra no U. Ela escolhe para si o nome Bell, “sino” em inglês, o mesmo significado de “suzu” em japonês. Seu avatar é baseado em uma bela estudante na escola (da qual ela tem ciúmes, por causa de um rapaz pelo qual Suzu tem uma quedinha) e, uma vez dentro de U, a moça descobre que ali ela consegue cantar. Sua música viraliza de um dia para o outro, ela passa a ser conhecida como “Belle” (bela, em francês, e o nome da protagonista de A Bela e a Fera na história francesa). Suzu volta ao U para fazer uma apresentação e tem sua cantoria interrompida pela Besta, um avatar monstruoso conhecido pelos muitos hematomas em suas capa e pela grande violência com que age. A Besta é caçada por uma espécie de justiceiros do ambiente virtual. Suzu fica fascinada pela Besta e decide tentar descobrir mais a seu respeito.

A bela Besta

Como é característico das obras do Momoda, a protagonista tem que viver entre dois mundos, neste caso o real e o virtual. O contraste entre eles é muito interessante. Momoda não tem medo de usar tecnologias digitais, e o universo de U é cheio de efeitos de luzes e cores saturadas, uma exuberância e caos tão grande que faz com que os algoritmos de compressão de vídeo fiquem loucos. Dá para notar isso já no trailer do Youtube.

No cinema, onde a compressão em teoria não seria um problema, a experiência deve ser incrível. E mesmo em arquivos comprimidos a beleza dos padrões e texturas é difícil de negar. É no U que o filme paga tributo à versão de A Bela e a Fera da Disney: os olhos amendoados e a boca definida de Belle, o castelo e a cena musical… Aqui tudo parece ser intencionalmente digital, até quando se tenta passar por 2D.

O mundo real não fica nem um pouco sem graça em comparação: Hosoda fez uma cidade rural tão deslumbrantemente linda em sua beleza natural que é impossível não querer passar umas tardes por lá. Há caos aqui, também, mas é um caos menos padronizado, um caos das coisas naturais. Um caos que se encontra nas pilhas de livros jogados ao acaso, que se encontra na vegetação crescendo sem controle. As personagens são animadas em um jeito bem característico do diretor, com traços muito dinâmicos que lembram desenhos de gestos e sem sombreados. Se o mundo digital é um show pirotécnico, o mundo real pulsa com vida e naturalidade.

A beleza e o cuidado com a natureza.

Não há preferência entre os dois: U é um escape onde Suzu pode se expressar, mas é um lugar igualmente hostil. Muitos dos problemas que acontecem lá são ó uma versão mais global dos problemas que Suzu tem no microcosmo da sua escola: ciúmes, fofocas, perseguições, etc. Ao mesmo tempo a vivência em um mundo ajuda a vivência no outro. Momoda não é panfletário. Muitas das superações acontecem no mundo online, sim, mas só são validadas depois, no mundo real.

Além disso, o mundo de U só é explicado o bastante para que aceitamos o que acontece. É estranho que os justiceiros consigam revelar quem as pessoas são com um laser verde. É estranho que a Besta seja tão perseguida. É estranho que ela seja “violenta” – como ser fisicamente violento em um mundo digital sem consequências reais. Ainda assim, tudo que precisamos para apreciar a história e as personagens esta aí. O resultado é um filme de ficção científica muito mais realista para nós que a história mágica na qual se baseia. É um daqueles futuros plausíveis que talvez nunca chegue, mas parece estar logo ali. U poderia facilmente ser um Fortnite, com sues shows digitais gigantescos.

No meio disso tudo há a questão da identidade. Suzu e Bell são a mesma pessoa e, ao mesmo tempo, entidades bem distintas. Uma é ignorada na escola, outra é idolatrada por uma multidão, e ambas as situações são difíceis de lidar para uma adolescente que há anos convive com traumas pesados. As identidades tem que ser protegidas a todo custo: na escola, ela tem que se encaixar no que se espera dela, e em U, um lugar onde ela pode ser quem quiser, o grande medo é que as pessoas descubram quem você é. Há um limite para o tanto que podemos nos conectar aos outros sem sermos nós de verdade, e a jovem que comove milhões de seguidores com sua música intimista e sequer consegue jantar com seu pai ilustra isso perfeitamente.

A poluição visual é intencional – e ferra com os algoritmos de compressão de vídeo

Eu gostaria de falar das personagens secundárias, uma das melhores partes do filme, mas não posso, porque elas têm cenas tão curtas que viram quase participações especiais e contar tiraria toda a graça. Uma delas de longe a cena mais divertida do filme, um drama que vira humor e volta a ser drama de um jeito natural e potente. Basta dizer que, embora as personagens não sejam muito bem desenvolvidas, elas são memoráveis.

Belle é fruto de um diretor com uma carreira longa e muito constante, que sempre entrega filmes de qualidade, mas teve algo aqui que me incomodou demais. Não posso comentar o que foi com exatidão, pois é o final do filme. Não foi o excesso de coincidências (estou acostumado e sempre tento relevar) nem a revelação do grande mistério, mas o que acontece depois que Suzu entra no metrô. É uma resolução boçal e simplória para um problema muito pesado, e que joga a responsabilidade em quem não deveria tê-la. Como disse no começo, o filme teve uma recepção muito boa. Talvez eu não tenha entendido, ou seja algo mais cultural. De qualquer forma, se alguém também se irritou, saiba que não está sozinho.

É difícil, para mim, dar um veredito. Até onde um final pode manchar uma obra tão tecnicamente esmerada e interessante, tão cheia de vida? O que posso dizer é que pareço ser minoria, e se desconsiderar o final o que sobra é um filme que moraria na minha mente ao lado da animação da Disney e do filme Belle et la Bête do Jean Cocteau. Infelizmente, se eu o levar em consideração o que sobrou é um filme que faz uma corrida maravilhosa rumo a ser um novo clássico mas tropeça e cai de cara pouco antes da linha de chegada.

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