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Ataque aos cães: as camadas por trás das masculinidades

Com direção de Jane Campion (O Piano), o filme é inspirado em livro homônimo e nas experiências de vida do escritor e novelista Thomas Savage, que cresceu em um rancho em Montana/EUA e depois de muitos anos se assumiu gay. O livro, inclusive, escrito em 1967, é considerado a sua obra-prima de Savage e conta a história de dois irmãos, Phil e George, que vivem num rancho isolado compartilhando o mesmo teto ao passo que ambos têm de lidar com personalidades completamente diferentes. Apesar da ambientação de “velho oeste”, o filme não se aproxima em nada das histórias de faroeste que costumamos ver nos cinemas.

Preciso começar pela escolha do título em português que acabou se perdendo no que o filme realmente é. “The power of the dog” é objetivo em mostrar o ímpeto do protagonista e “ataque aos cães” tira um pouco disso. Não é um filme fácil para assistir mas a condução da direção faz com que cada personagem ali compartilhe conosco as suas dores e aflições. Isso não seria possível sem atuações incríveis do elenco e não à toa o filme tem sido chamado de “faroeste silencioso”. Veja que a essência do filme se distancia cada vez mais da escolha do nome em português.

E aqui reside minha aposta do Oscar de melhor ator pois Benedict Cumberbatch está simplesmente incrível. No papel principal como Phil Burbank, núcleo da história, ele é um homem que gosta de ser o centro das atenções em qualquer lugar que vá e toda a personalidade de Phil é desenhada em palavras, gestos, ações e, principalmente, olhares. Acostumado com isso na família, leva esse dever de estar em destaque para outros ambientes e essa é a parte mais dolorosa da relação dos demais personagens com ele: a presença de Phil é tão marcante que sequer o seu irmão George Burbank (Jesse Plemons), responsável pela administração da fazenda, tem coragem de confrontá-lo.

Phil é responsável pelas funções mais operacionais do rancho e as quais combinam com sua praticidade: cuidado com os animais, castração, marcação de gado, dentre outros. Acostumado com essa rotina, não é lá asseado nem muito sociável ou educado com pessoas que não são seus semelhantes (no caso, outros cowboys). Ele é hostil inclusive com os próprios pais.

George já cuida das finanças e da administração da fazenda. Sempre preocupado em estar bem vestido e ser educado, é gentil e o maior alvo das críticas e ataques do irmão. Mas Phil não odeia George e essa construção vai sendo feita de uma forma brilhante no filme. Afinal, o amor tem as suas nuances e nem sempre está relacionado a carinho e outras demonstrações de afeto e prova disso é quando Phil apresenta sinais de ciúmes ao ver que seu irmão vai se casar com Rose Gordon (Kristen Dunst), mãe de Peter (Kodi Smit-McPhee). Ao se casar com aquilo que via como uma “esposa perfeita”, George constantemente a pressiona a alcançar esse patamar e isso gera uma tensão no casal e nos faz sentir um pouco da solidão de Rose.

Peter é outra parte importante da história. Sua forma de se vestir, se interessar por livros, andar sempre limpo e alinhado e ter bons modos o faz ser visto no rancho como um “maricas”, sendo alvo constante de piadas machistas e outros ataques. Existem detalhes que precisam de atenção do espectador e podem passar desapercebidos como a curiosidade de Peter com fisiologia e medicina, o animal com antraz e um presente que ele dá já na parte final do filme.

Peter é, assim, um outro alvo de Phil e leva o espectador a adotá-lo como um outro sujeito digno de empatia. Contudo, assim como Phil e George, as camadas vão sendo retiradas até que deixamos de ver ele como um inocente garoto que está deslocado no rancho. São três homens completamente diferentes e nuances que ora nos faz solidarizar ora nos causa repulsa ou raiva.

A personagem mais mal construída é Rose mas mesmo nos poucos momentos em cena e nas partes sem resposta no background, Dunst entrega uma atuação muito boa. Ela é apenas um acessório que liga a relação dos três homens envolvidos na trama e não à toa, é dessa forma objetificada que todos os personagens do filme a tratam.

A fotografia do filme é grandiosa e a todo tempo nos faz entender como aquela imensidão de paisagens e montanhas engole cada pedaço da vida dos personagens. Essencialmente não há mais nada ali além deles mesmos e isso só reforça a tensão toda da história. A música contribui ainda mais para reforçar esse sentimento.

Vale muito a pena assistir e tirar as suas próprias conclusões. O filme é muito bom e tem atuações incríveis.

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