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A mitologia dos dragões

Na inquietação de não ter com quem falar sobre uma das coisas que mais gosto de falar, decidi escrever esse texto aproveitando toda a minha bagagem “inútil” sobre dragões. A Casa do Dragão tem despertado minha adormecida curiosidade pelas criaturas aladas que são mostradas a cada episódio e, com tantos animais diferentes dentro de uma mesma lore, qual dragão é realmente mais “fiel” à sua origem?

Ah mas dragões nem existem“. Bem, diz isso pro dragão de Komodo, ou então olha pra cara desse serzinho e diz pra ele que dragões não existem, vai.

What's Behind Slovenia's Love Affair with a Salamander? | The New Yorker

Essa é a salamandra eslovena que pode viver por quase um século


Ok, ela não tem olhos.

Mas olha (?), se isso ajuda, super-heróis também não existem, mas mesmo assim tem muita gente se debatendo por aí porque os poderes do Thor da Marvel não respeitam os poderes de outra entidade igualmente fictícia, o deus nórdico do trovão. Vida que segue e vamos lá.

Caro leitor, o texto o texto aqui não tem qualquer rigor científico. Em outros termos, não há uma hipótese nem um problema que será validado ou não por uma extensa pesquisa. Tudo aqui é para saciar minha inquietação de colocar em palavras um pouco do meu fascínio por essas criaturas fantásticas.

Qual é a origem dos dragões? Isso é difícil definir pois em várias partes do mundo, em épocas diversas, o dragão esteve presente no imaginário das pessoas representando coisas diversas, com características próprias além da pele escamosa. Vamos passar por algumas descrições.

Bestiários medievais

Em um grande trabalho de pesquisa por documentos medievais, estudantes da UCLA, sob a orientação de Meredith Cohen e Larisa Grollemond, criaram o Book of Beasts. De acordo com os levantamentos na pesquisa em textos cristãos, o dragão era mostrado como representante da morte e do infortúnio ou a encarnação do mal.

On the right-hand side of a medieval illuminated manuscript, a fire-breathing dragon takes flight

É associado à serpente, com peles escamosas, além de cuspir fogo. A representação varia de acordo com o artista, mas normalmente está relacionada a cobras ou crocodilos. A depender da região, havia crenças que a urina do dragão lesionava a pele, ou que seu hálito envenenava poços e riachos. Assim, num geral eram criaturas temidas.

São Jorge

Posteriormente beatificado, São Jorge protagonizou uma lenda de origem pré-cristã envolvendo um dragão. De acordo com o que se conta, um dragão extorquia tributos de aldeões, que começou com oferendas pequenas e gados e depois passou para os sacrifícios humanos. Uma outra versão conta que São Jorge chegou numa comunidade pagã na Líbia e viu a aldeia ofertar a princesa ao dragão.

The Dragon Within - Pre-Raphaelite Sisterhood

São muitas versões, mas todas convergem com a atitude de São Jorge que matou o dragão com uma lança. Em uma delas, São Jorge atordoa, amarra o dragão e o leva à aldeia, prometendo que o soltaria caso as pessoas não se convertessem ao cristianismo.

A iconografia também varia, sendo comum representações do herói pisoteando uma serpente ou um dragão com o seu cavalo, enquanto o empala. Daqui, então, a característica mais notável é a semelhança com uma cobra.

O temível Tiamat

Tiamat está relacionado à região da Mesopotâmia. É a deusa dos mares, que se junta a Abzu, deus das profundezas, para criar o cosmos e gerar outros deuses mais novos. Quando o marido é morto, ela se enfurece e para buscar vingança, se transforma em um dragão marinho.

É símbolo do caos da criação. Apesar da pouca acurácia histórica (inclusive em termos de consenso se ela era ou não um dragão), costuma ser descrita como uma serpente. Tiamat acabou se popularizando como um dragão de múltiplas cabeças por conta de Dungeons & Dragons.

Aliás, o RPG é uma fonte interessante de como mitos e lendas ganharam contornos próprios. Além de Tiamat, existem outros dragões no universo desse RPG tais como dragões em geral, dragões das sombras e os dracolich (que são dragões mortos-vivos).

Os dragões do D&D, num geral, são descritos como répteis alados de “linhagem ancestral e poderes assustadores”. São conhecidos por sua astúcia, ganância e magia, característica esta última forte naqueles que possuem sangue dracônico.

No livro dos monstros, o alinhamento/ personalidade e os poderes do dragão é definido pela cor. Os da cor bronze, cobre, ouro e prata são nobres, bons e respeitados enquanto os das cores azul, branco, negro, verde e vermelho são malignos, agressivos, vorazes e vaidosos e, por isso, temidos.

Os dragões das sombras nasceram na Umbra ou assim se transformaram por ficarem lá por anos. São sensíveis à luz do sol e dotados de habilidades furtivas e outras relacionadas ao mundo sombrio.

Dragões chineses

É injusto atribuir a lenda dos dragões apenas à Europa, quando na China a criatura, conhecida como yong, já protagonizava lendas e estava presente no zodíaco chinês. O dragão, segundo reza a lenda, foi um dos quatro animais sagrados convocados para ajudar na criação do mundo.

Apesar de guardarem semelhanças como a pele escamosa, o voo e a cauda, os dragões chineses têm uma singular característica que provavelmente vem de inspiração na própria cultura da graciosidade e dos detalhes. São descritos como possuidores de olhos de tigre, corpo de serpente, cor azul, quatro patas de águia, chifres de veado e bigodes de carpa, além de serem representados pelo jogo, que simboliza a transformação, o surgimento do novo.





O dragão de Shiryu e Haku de A Viagem de Chihiro são representações fortes que me vem na cabeça. Normalmente caracterizado por uma graça única nos movimentos aéreos e ao contrário do ocidente, representam coisas boas e auspiciosas e estão fortemente relacionados à água.

O Percutor da Malícia

Níðhöggr é um dos dragões mencionados na mitologia nórdica, juntamente com Grabak, Grafvolluth, Goin e Moin. A criatura vive em Nifelheim, um submundo. De lá ele rói as raízes da Yggdrasil, uma árvore gigante que carrega um forte simbolismo, com o intuito de destruí-la e assim poder vagar pelos mundos. Porém Níðhöggr transita entre o bem e o mal, representando equilíbrio.

Níðhöggr roendo a Yggdrasil num manuscrito do séc. XVII.

Quando chega o Ragnarok, o fim dos tempos chega, Níðhöggr se liberta e consegue, por exemplo, ir até Midgard (o mundo dos homens). Em uma das seções das Eddas em prosa, o dragão é descrito como uma serpente ao lado de outras criaturas como Fafnir e Jormungand.

É interessante pois apesar de ser atuante em pontos das eddas, há pouca descrição desse dragão. Ele é gigante e se parece com uma serpente (lembrando os dragões chineses), tendo duas patas dianteiras, espinhas no dorso e dois chifres.

A milenar cidade dos dragões

Liubliana, capital da Eslovênia, é conhecida como a cidade dos dragões pois, segundo contam, lá é onde foi encontrada a primeira ossada jurássica que estimulou a criatividade das pessoas a ponto de criarem dragões. Por aquelas bandas também conta-se que ao acharem as salamandras, acreditaram ser filhotes de dragões e a lenda cresceu (ou se fortaleceu) com isso.

Liubliana: o que visitar na capital da Eslovénia - Espreitar o Mundo




Uma outra história, mais popular, remonta à Grécia antiga. Jasão, herói da mitologia, roubou um item do Rei Aeetes e fugiu a bordo do Argo, junto com seus companheiros, os Argonautas, pelo Mar Negro.

Subiram o Rio Danúbio até chegaram a Ljubjanica, onde desmontaram o barco para montá-lo novamente no Mar Adriático e retornar à Grécia. No caminho para a costa, pararam em um grande lago na cidade onde morava um dragão, o qual Jasão acabou derrotando-o antes de ir embora. 

Na cidade, o dragão já passou de monstro a símbolo de protetor da cidade, inspirando poder, coragem e sabedoria. Hoje é um fator turístico forte da cidade e por lá eles vendem desde réplicas de metal e pelúcia até doces, tudo em homenagem ao símbolo local.

Esse da foto, por exemplo, é um dos quatro dragões que ornamentam a famosa Ponte Jubileu da cidade, criada em 1900. Os dragões, já nessa época, eram fortes, com quatro patas, pele com escamas, asas e uma boca em formato semelhante a um “bico”. 

Por tudo isso, dizer que dragões não existem é um pouco exagerado. Eles existem, de fato, mas as versões que habitam as lendas estão relegadas às nossas imaginações. Então, por hora, ser fluente em valiriano e berrar dracarys não vai ter muita utilidade. 

Termina aqui a parte 1 desse texto. Precisei dividir porque quero deixar uma parte para analisar as características na representação dessas criaturas ao longo das famosas produções audiovisuais. Nos vemos na próxima semana, mas enquanto isso, me conta quais as outras referências à dragões vocês conhecem!







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