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A Fantasia do Cânone

Para minha primeira postagem eu pensei em falar de um livro de fantasia que amo, The Last Unicorn do Peter Beagle, e suas adaptações para filme animado e história em quadrinhos, mas me pareceu um tema muito específico para começar a escrever em um site, então pensei em algo mais genérico: uma lista falando de grandes obras de fantasia, obras que todo fã do gênero deveria conhecer e que fugisse um pouco dos nomes mais comuns. O problema é que a lista já estaria errada só de ter este nome. Isso porque uma lista de obras indispensáveis entra em contato com um conceito interessante chamado cânone: as obras “clássicas”, as que resistem à passagem do tempo, as que seriam indispensáveis. E não dá para pensar em cânone sem pensar em quem o define. Fui escrevendo a respeito e não parava, e por fim fiz um texto bem mais chato do que uma resenha de um livro (e filme, e quadrinho) incrível.

(me chamo, Heider, prazer em te conhecer, eu divago muito e sou péssimo com introduções)

Quando falamos do cânone literário “tradicional” quem decide o que pertence e o que não pertence a ele é, de modo geral, a área acadêmica. Ela que vai ditar quais livros as escolas devem comprar, quais livros devem ser ensinados aos alunos, quais livros todo adulto deveria conhecer, etc. Com certeza muitos livros que “resistem à passagem do tempo” teriam caído no esquecimento não fosse a sua ligação íntima com a área acadêmica. São livros que, sim, resistem à passagem do tempo, mas só porque estão ligados a aparelhos de suporte vital.

Esta discussão rende muito, mas ela vale mais para o cânone tradicional. Acontece que a ficção especulativa (um termo usado que engloba obras de fantasia, terror e ficção-científica) não é lá muuuuito bem vista em meios acadêmicos. Então, eles não têm tanto poder para definir o que é um clássico de fantasia e o que não é.

(se você sugerir que, bem, talvez um livro em que o protagonista derrote sereias e bruxas ou seja uma pessoa transformada em inseto ou esteja morto ou aconteça em uma biblioteca infinita talvez, sóóóó talvez, possa ser considerado uma obra de fantasia, você pode deixar um ou outro intelectual fã de Homero/Machado de Assis/Kafka/Borges fulo, te explicando o quanto tudo aquilo é “metafórico”. Você pode conhecer alguém legal também, e bater bons papos. De qualquer modo, recomendo, ambas as situações são bem divertidas)

Então quem define o que é o cânone da literatura fantástica? Os fãs seria a resposta mais óbvia, mas ela é inocente demais. Há um outro fator MUITO impactante para a definição de cânones: o mercado. Os fãs e o mercado agem em uma relação de simbiose, onde um se alimenta do outro, e o mercado na área de fantasia é fortíssimo. Meio que foi assim que o gênero de literatura épica de fantasia como a gente conhece surgiu. Livros de fantasia sempre foram escritos e sempre serão, mas Tolkien vendeu horrores com seu livro infantil O Hobbit, e depois vendeu horrores com seu livro adulto O Senhor dos Anéis e isso gerou uma mudança no próprio mercado literário como um todo.

Muitos leitores, insaciáveis, queriam mais, mas infelizmente um livro demora bem mais para ser escrito do que para ser lido. Livros como os do Tolkien gastam décadas de muito trabalho e pesquisa, são casos raros de talento e dedicação ímpar. Tolkien morreu sem publicar algo no mesmo universo, mas foram surgindo livros de outros autores inspirados (alguns copiando) suas histórias e também em vários outros outras como As Crônicas de Nárnia de C. S. Lewis, as histórias do Fritz Leiber. Livros de fantasia anteriores ou feitos sem a inspiração da Terra-Média também tiveram um aumento nas vendas. Surgiram até selos especializados em livros de fantasia, como o Ballantine Adult Fantasy, editada por Lin Carter. Simplificando, fantasia entrou na moda.

Ballantine Adult Fantasy popularizou o gênero com livros baratos e maravilhoso

Essa vontade que temos de experimentar novamente a mesma coisa ou algo parecido explica porque temos tantos filmes que são remakes ou continuações, e explica também como surgem subgêneros. Quando a série Game of Thrones explodiu no Brasil era comum vê-la sendo definida como O Senhor dos Anéis com sexo, ou com violência, ou com personagens cagando. O sucesso foi tanto que várias séries (e livros) apareceram sendo vendidos como os novos Game of Thrones. Até que a última temporada foi lançada e aí nem Game of Thrones queria mais ser Game of Thrones… Mas o subgênero de obras de fantasia mais “adultas” segue firme e forte: a série da Amazon baseada no universo de O Senhor dos Anéis está chegando e uma das perguntas comuns é se ela vai ser mais O Senhor dos Anéis ou mais Game of Thrones. É uma obra do universo de O Senhor dos Anéis baseada em Game of Thrones que, por sua vez, foi influenciada por O Senhor dos Anéis, uma bagunça só.

É bom notar que o que Tolkien escrevia é fantasia para nós, mas não era assim que o gênero era chamado. Uma matéria do The Daily Telegraph de 1968, ano de lançamento de O Senhor dos Anéis como um volume único, o define como um “épico conto de fadas”. O próprio Tolkien se refere assim ao tipo de história que escreveu:

Contos de fadas críveis precisam ser muito práticos. É preciso haver um mapa, não importa o quando ele possa ser simplório. Senão, você termina andando a esmo. Em O Senhor dos Anéis nunca fiz ninguém andar mais do que seria possível em um dado dia.” (tradução minha)

Agora imagina que você vai numa livraria por volta do final dos anos 60. Você ficou fissurado com O Senhor dos Anéis e quer ler algo parecido. A vendedora, muito solícita, te recomenda um livro. Só que muita gente vai lá pedindo a mesma coisa e, cansada de andar pela loja pegando livros “parecidos com o que Tolkien escreveu”, ela os agrupa em uma prateleira e pensa: vou dar um nome para isso, “parecido com o que Tolkien escreveu” não soa muito profissional. Ela decide chamar de “fantasia” ao invés de “contos de fada para adultos”, “ficções mitológicas” ou qualquer outro termo. Se as pessoas adotarem a nomenclatura, temos um gênero.

E o mercado, hoje em dia, define também o que é e o que não é “canônico” ou “oficial”. Os fãs, para o mercado, são consumidores. A Disney é dona de uma fatia cada vez maior das mais famosas obras de fantasia, ficção científica, horror e super-heróis, e a Warner Bros é dona de outra fatia gigantesca dos mesmos gêneros. E, embora livros e quadrinhos possam ser feitos sem muitos recursos financeiros, filmes, séries e animações são caríssimos. Para consumir estes produtos dependemos destas grandes empresas.

As empresas têm o poder de dizer o que é oficial ou não, e até o poder de fazer desaparecer muito do que não lhes agrada. Muitas vezes nem os criadores das histórias recebem crédito ou remuneração pelo que criaram. Uma arte feita por uma fã é excluída, um vídeo de crítica some, um filme ou quadrinho ou jogo que nos venderam mas que, por um motivo ou outro, não os interessa mais é eliminado do cânone como se nunca tivesse existido e deixa de ser vendido.

As histórias e as personagens são vistas como propriedades privadas de empresas, mas elas também são nossas. Elas são criadas por pessoas e consumidas por pessoas. Ninguém vive a mesma história do mesmo jeito que os outros. Reparamos em detalhes distintos, damos significados diferentes às ações das personagens. Temos vivências diferentes que fazem com que gostemos de coisas diferentes. As histórias vivem dentro da gente, não apenas em produtos que podem ser comprados.

Por isso não dá para ter um cânone, por mais que seja interessante para algumas empresas. Por isso que não dá para definir obras obrigatórias. Um fã de fantasia que nunca abriu uma página de algo que o Tolkien escreveu ou nunca passou do prólogo de O Senhor dos Anéis por achar um tédio é tão fã de fantasia quanto alguém que sabe de cor as árvores genealógicas de O Silmarillion. Ele pode gostar de outras obras, de outros tipos de fantasia, com a mesma paixão e mesmo afinco que fãs do Tolkien têm pela Terra-Média.

(para quem nunca leu O Silmarillion e não pegou a referência: seria tipo decorar a tabela periódica dos elementos. Para quem não leu O Silmarillion mas decorou a tabela periódica dos elementos: talvez você goste de O Silmarillion, deixo aqui minha recomendação)

Cânone deveria ser sempre encarado como algo muito pessoal. Fanfics não são oficiais, mas uma delas pode te tocar mais do que o novo filme contando a história que ninguém nunca quis saber da juventude de uma personagem. Algumas das melhores teorias que já ouvi foram feitas por fãs, e guardo elas comigo com carinho. Elas fazem com que eu goste mais das obras, não menos. Minhas aventuras em Dungeons & Dragons são mais reais para mim do que aqueles filmes totalmente esquecíveis. Death Note para mim termina no episódio 25, a Força é algo místico e não midi-chlorians, Frodo e Sam tinha um relacionamento romântico e se você discorda, tudo bem. Que ótimo, inclusive; ruim seria todos pensarem igual. Temos muito mais liberdade ao lidar com nossas histórias do que é o senso comum, e criar pode ser tão gostoso quanto consumir..

Eu pretendo falar um pouco do meu cânone por aqui: das coisas que gostei e que não gostei, dos motivos para isso, de onde vim para ver a história de um jeito e para onde a história me levou. Falar de teorias e devaneios. O objetivo é expor minhas opiniões e sensações, e não as impor. Sempre que eu falar que algo não funciona ou que é incrível, tem um “para mim” implícito no texto. Acho que leituras pessoais são sempre mais gostosas que textos técnicos demais; o mundo já é técnico e impessoal demais, e disfarçar o que no fundo são opiniões como certezas não é muito saudável. Desde já agradeço a quem tirar um tempinho para lê-los: obrigado pela companhia e pela atenção.

Nos vemos em breve.

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